O espelho da alma2020-10-25T15:51:43+00:00

Eurico Carrapatoso

O espelho da alma

Madalena Melo | Outubro 2020

O espelho da alma [subsídios para o estudo de uma orografia musical portuguesa] é uma obra para violino, viola, violoncelo e piano, composta em 2009. Os sete andamentos que a constituem — 1. Eterno / 2. Pírrico / 3. Sedoso / 4. Careto / 5. Saudoso / 6. Pícaro / 7. Materno — baseiam-se em melodiais tradicionais transmontanas e açorianas.

É possível reconhecer na minha obra uma componente de portugalidade e uma raiz que mergulha profundamente na minha identidade portuguesa. […]

Na qualidade de transmontano devo confessar que o maior património que recebi da minha ruralidade, como compositor, foi o conceito de tempo longo, do tempo telúrico da minha Serra de Bornes, do tempo dantesco e escarpado que emana da paisagem sobre o Douro no Penedo Durão, do tempo quimérico do meu castelo de Algoso. Mais que do tempo curto – meio bastardo e meio manhoso – das grandes cidades, é da linfa decantada daquele tempo longo que me tenho alimentado como compositor. E é essa linfa que me dá a robustez estética e o cabedal filosófico necessários para prosseguir firme no meu caminho, com desassombro, sem temer as aparências. [… ]

Agradeço a Fernando Lopes-Graça [FLG], que me privilegiou com a sua amizade e me terá entregue a estafeta da sua demanda de um sentir profundamente português que reside na sua grandiosa obra de recolha e harmonização da melodia popular genuína, património da nossa identidade. Há que não deixar apagar este facho. […]

Esta obra resulta de uma encomenda da TEMPORADA DARCOS que me foi feita pelo compositor Nuno Côrte- Real no verão de 2009. A obra deveria fazer uma evocação (directa ou oblíqua, ao meu critério) da melodia tradicional portuguesa, já que a sua estreia viria a ser integrada no âmbito de um concerto denominado MÚSICA TRADICIONAL PORTUGUESA [Música popular vs. Música erudita], realizado em Torres Vedras no dia 27 de Novembro de 2009. […]

Análise descritiva de cada andamento:

1. ETERNO (Oh, Bento airoso) – esta melodia de Natal foi recolhida por Giacometti e Lopes-Graça em Paradela, concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança, em 1960, e revela uma profunda qualidade melódica, de feição contemplativa, bem como um interesse rítmico singular, atestado por uma métrica que alterna entre os compassos 5/8 e 7/8. O estribilho do piano que intercala as 4 estrofes é uma síntese de elementos melódicos e da harmonia residual que emana da própria melodia popular.

2. PÍRRICO (Mirandum se fui a la guerra) – esta dança guerreira (ou dança pírrica, que era a dança masculina feita com armas na mão, na qual os homens se exercitavam desde cedo), é originária da Guerra do Mirandum (episódio da Guerra dos Sete Anos, com o cerco de Miranda do Douro feito pelos espanhóis em 1762) e foi ali recolhida em 1870 ~ 1890 por G. das Neves, G. de Campos e Ferreira Deusdado). A energia rítmica é-lhe dada por um tempo vivo de giga e ainda pela alternância entre o 6/8 de base e o 3/4 que emerge de uma forma enérgica, quase rude (no violoncelo no compasso 13, por exemplo, ou no violino no compasso 38). O efeito geral é martelatissimo, como é pedido na partitura, e o piano sugere-nos um registo refulgente de bronze, como os sinos a rebate da minha aldeia.

3. SEDOSO (Olhos pretos) – esta melodia amorosa, insinuante e lírica simultaneamente, cheia de anseio interior, evoca um dos nossos ícones identitários, cristalizado no amor de Dom Pedro por Dona Inês de Castro. Este andamento é sedoso como Inês. Esse amor cristalizou-se em mito na nossa memória colectiva. Também ele é linfa da identidade portuguesa. Esta peça é uma das minhas flores de verde pinho. À semelhança do cruzeiro de Alcobaça, o panteão do amor eterno, sinto nesta peça para violino, viola e piano, o contraste inquietante entre o despojamento cisterciense e o gótico pungente das esculturas funerárias dos amantes. O violoncelo espreita, e, tal como Pedro, aguarda o seu lamento no andamento elíptico que há-de vir.

4. CARETO (Sericotão) – um pouco como em Três danças portuguesas, para grande orquestra, compostas em 1941 por Lopes-Graça, onde o mestre, apesar do mimo e respeito impecáveis sempre por si evidenciados pela música popular portuguesa, não deixou de inocular um claro sentido de humor, aqui subtil, ali pícaro, acolá fauve, os materiais são elaborados por mim de uma forma crua, preservados na pulsão telúrica da sua etimologia rural. A referida obra de FLG que neste careto preservo como paradigma estético, é, aliás, um exemplo lapidar, qual corolário, da sua (de FLG) própria postura cívica e política, sempre em clara oposição à imagem do Portugal “bonitinho e castiço” que o Estado Novo promovia à saciedade. Também neste número se canta e se decanta um Portugal “profundo e real”. E se há ironia, é porque o povo é irónico. E se há humor pícaro, é porque o povo é pícaro. E se a música parece, por vezes, fazer caretas, é porque o povo português tem uma arcaica tradição de caretos. A música, aliás, tal como as carcaças do já citado Francis Bacon, ou as galinhas meias-depenadas-meias-esquartejadas de Chaim Soutine, dá-se muito bem com a crueza dos instintos primários. Aqui trata-se dos instintos primários que se projectam ora na matança do porco,ora na desgarrada grotesca da taberna, ora na pega de touros com espontâneos cambaleantes, ora no despique de bandas, ora na folia destravada. Voltando ao Lopes-Graça, a coisa é de tal forma crua, que no 3º andamento de Três danças portuguesas (Malhão), nem os perus parecem ter faltado à festa.

5. SAUDOSO (Terra do Bravo) – agora é chegada a vez de Inês testemunhar o canto de Pedro, e toda a saudade que só o violoncelo canta e decanta. A saudade, essa bruma do amor português, chegou aos Açores. E todos os dias ali se forma, nas Terras do Bravo.

6. PÍCARO (Mira-me Miguel) – esta peça foi gravada nos anos 60 no nordeste transmontano, mais concretamente na região de Miranda do Douro. A sonoridade é metálica. O ritmo ben’ articolato ancora-se firmemente nos ostinati do piano, que lhe dão um carácter de máquina locomotiva. Todos os instrumentos ululam num registo aqui irónico, ali pícaro, além virtuoso. A citação de Mozart no fim da peça, num registo agudo de caixinha de música, tem um sentido mahleriano de visão irónica e anti- picarda da vida que a própria história da canção original narra: pobreza, abandono, vidas duras e ásperas, que, empedernidas, espargem vinagre e transpiram humor negro.

7. MATERNO (Ó, ó, menino, ó) – recolhida pelo musicólogo alemão Kurt Schindler por volta de 1930, numa época pré-radiofónica e seguramente não infectada pelo nacional-cançontismo que Lopes- Graça tanto deplorava, este embalo lento e eterno possui uma intrigante perfeição melódica. Tem algo de regaço e de materno. Verdadeiro arcobotante da estrutura musical deste Espelho da alma, esta melodia nativa do meu querido nordeste transmontano, mais propriamente do concelho de Vinhais, terra onde minha mãe nasceu, cria, só por si, um cordão umbilical eterno entre mim e a obra que se transforma, assim, no espelho da minha própria alma.

— Eurico Carrapatoso (2011)

 

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